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| Imagem Ilustrativa |
A linha que separa uma apresentação cultural de um ato político vem se tornando cada vez mais tênue nos palcos brasileiros, gerando debates acalorados sobre legislação eleitoral, liberdade de expressão e o respeito ao público pagante. Na noite de 27 de setembro, o palco do Sesc Vila Mariana foi cenário de uma homenagem ao compositor e músico João Donato e lançamento do álbum Viva Donato (Selo Sesc). O que se desenhava como uma noite de celebração da música brasileira terminou com um gesto que dividiu a plateia: ao final do show, artistas fizeram o "L" com as mãos e incentivaram o público a se manifestar politicamente. Marcos Valle, Mônica Salmaso, Joyce Moreno, Paula Morelenbaum, Donatinho e Patrícia Alvi ergueram as mãos com o sinal de "L" e estimularam a plateia a interagir num showmício declarado.
A fusão entre shows com cobrança de ingressos e manifestações político-partidárias tem levantado questionamentos éticos e legais. O público que adquire um ingresso é formado por cidadãos com diferentes visões de mundo. Ao transformar o palco em palanque, impõe-se um discurso político unilateral a quem pagou para consumir cultura, criando um ambiente onde parte da plateia pode sentir-se excluída.
A Reação Política: A Denúncia de Carlos Viana
Esse episódio não é um fato isolado e já chegou à esfera jurídica. O senador Carlos Viana tem atuado fortemente contra o que considera infrações à legislação eleitoral em eventos culturais. Recentemente, o parlamentar protocolou denúncias no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra artistas como Ivete Sangalo, que realizou gesto semelhante em resposta ao público durante um show em Belo Horizonte.
A Reação Política: A Denúncia de Carlos Viana
Esse episódio não é um fato isolado e já chegou à esfera jurídica. O senador Carlos Viana tem atuado fortemente contra o que considera infrações à legislação eleitoral em eventos culturais. Recentemente, o parlamentar protocolou denúncias no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra artistas como Ivete Sangalo, que realizou gesto semelhante em resposta ao público durante um show em Belo Horizonte.
Em vídeo publicado em suas redes sociais ( veja a manifestação do senador aqui), Viana argumenta que essas atitudes ferem a lei eleitoral, configurando a prática de "showmício" — eventos organizados com o intuito de promover candidaturas, o que é vedado pela legislação. Para o senador e seus apoiadores, a cobrança de ingressos não isenta o evento de se tornar uma plataforma irregular de campanha quando há incitação explícita por parte dos artistas.
A Posição do Sesc: Autonomia Artística e Pluralidade
Questionado pela nossa redação sobre a adequação do uso de sua infraestrutura para atos de proselitismo político e sobre o respeito à diversidade do público pagante, o Sesc São Paulo enviou um posicionamento oficial, distanciando a instituição da atitude dos músicos e defendendo a liberdade de expressão.Em nota, a instituição declarou:
"O Sesc São Paulo é uma instituição apartidária e não manifesta apoio a partidos, candidaturas ou correntes político-partidárias.
A instituição pauta sua atuação pelo respeito à pluralidade de ideias, à liberdade de expressão e à diversidade de seus públicos, princípios que orientam sua atuação nos campos da cultura, educação, esporte, lazer e assistência. Informações sobre atuação, estrutura institucional e instrumentos de transparência e conduta estão apresentados publicamente em nosso portal sescsp.org.br.
No contexto de sua programação cultural, o Sesc reconhece e preserva a autonomia artística como princípios transversais ao respeito à pluralidade, à cidadania, ao diálogo e à convivência democrática. Eventuais manifestações de caráter pessoal realizadas por artistas durante suas apresentações são de responsabilidade de seus próprios autores e não representam posicionamento político ou institucional do Sesc São Paulo.
A diversidade de opiniões de seus públicos reafirma seu compromisso em manter seus espaços abertos à expressão artística, ao encontro e à convivência entre pessoas com diferentes perspectivas e visões de mundo."
O Debate que Fica
A resposta do Sesc evidencia a complexidade da questão: de um lado, a defesa irrestrita da autonomia artística, blindando a instituição das opiniões pessoais de seus contratados; de outro, a frustração de parte do público e a vigilância de parlamentares que enxergam uma violação da isonomia eleitoral disfarçada de performance.
O debate transcende a preferência partidária. A questão central que se impõe à sociedade, aos legisladores e aos gestores culturais é a definição de limites. Até que ponto a liberdade individual do artista sobrepõe-se à finalidade original de um espetáculo pago? Enquanto a Justiça Eleitoral e as instituições não delinearem contornos mais claros para essas situações, o palco continuará sendo, para o bem ou para o mal, uma extensão improvisada do palanque.
